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‘Meu apego ao Direito é mais profundo do que ao sucesso literário’

Scott Turow -  © Jeremy Lawson Photography55

Quando, em 1987, publicou o romance “Acima de qualquer suspeita”, Scott Turow não imaginava que estaria lançando um subgênero literário: o thriller jurídico. O modelo concebido por Turow, cujos livros já venderam mais de 25 milhões de exemplares em todo o planeta, foi abraçado por autores como John Grisham e John Hart, e catapultado para uma popularidade ainda maior com as adaptações cinematográficas.

Apesar da bem-sucedida carreira como escritor, Turow continua trabalhando como advogado nos Estados Unidos.“Os americanos costumam dizer: ‘Se não está quebrado, não conserte’. Por que mudar alguma coisa na rotina que tem gerado um êxito tão grande? Ao longo dos anos, percebi que meu apego ao Direito é mais profundo do que isso”, afirma o autor, que, de passagem pelo Brasil para participar de evento literário organizado pela Associação dos Advogados de São Paulo, concedeu entrevista exclusiva à Tribuna.

MARCELO MOUTINHO

Desde o lançamento de Acima de qualquer suspeita, o senhor passou a ser considerado o criador de um subgênero literário: o thriller jurídico. Foi algo planejado ou o livro ganhou essas características durante o processo de escrita?

Turow – Há a lenda de que o monge Dom Pérignon inventou o champanhe por acidente. Bebeu os primeiros por curiosidade e, em seguida, desmoronou-se em um lance de escadas. No fundo, ele disse: “Eu estou bebendo estrelas”. Ao contrário de Dom Pérignon, não percebi que Acima de qualquer suspeita geraria um movimento literário. Eu só estava escrevendo sobre o que sabia e esperava, depois de muitas tentativas frustradas, obter um romance publicado.

Mesmo sendo um escritor de sucesso, com mais de 25 milhões de livros vendidos em todo o mundo, o senhor continua trabalhando como advogado. Por quê?

Turow – Originalmente, eu usaria um “americanismo”. Os americanos costumam dizer: “Se não está quebrado, não conserte”. Por que mudar alguma coisa na rotina que tem gerado um êxito tão grande? Ao longo dos anos, percebi que meu apego ao Direito é mais profundo do que isso. Eu sempre serei atraído para suas mais profundas dúvidas sobre como separar o certo do errado, como fazer regras flexíveis, mas corretas, e como encontrar a verdade sobre o que aconteceu no passado recente. No entanto, tenho 64 anos e atuei em um processo criminal cerca de um ano e meio atrás. Quando saí da sala do tribunal, disse a mim mesmo: “Eu não tenho certeza se faria isso de novo”.

Na maioria de seus livros, como em Erros irreversíveis, parece haver uma tentativa de mostrar como a lei pode ser falha. Como se sente, sendo advogado, e tendo essa visão crítica quanto às possibilidades de justiça por intermédio da lei?

Turow – Bem, eu duvido de que haja muitos advogados que exercem sua atividade nos Estados Unidos ou no Brasil e que pensam que seu sistema legal é impecável. Acho que a lei tem uma missão nobre, fazer uma pequena parte da vida dos seres humanos poder ser controlada mais racionalmente. Mas, por razões complexas, nem sempre é bem sucedida. No entanto, a lei e a confiabilidade relativa de nossas instituições jurídicas são realmente grandes conquistas dos Estados Unidos.

Em um de seus primeiros livros, One L: The turbulent true story of a first year at Harvard Law School, o narrador em certo trecho afirma: “Eu sei que saio do curso melhor preparado tecnicamente; não sei, porém, se saio uma pessoa melhor”. O senhor concorda, hoje, com essa afirmação? Por quê?

Turow – Pensei desde então e hoje acho que a faculdade de Direito não faz o suficiente para resolver os conflitos éticos e pessoais sobre a prática da advocacia. Apenas como um exemplo: como se pode ter a máxima fidelidade a um cliente e tentar ganhar dinheiro com suas desgraças? Estas são perguntas difíceis sem respostas fáceis, e as escolas de Direito nos Estados Unidos às vezes tendem a ignorá-las. Devo dizer, porém, que elas fazem um trabalho melhor hoje na abordagem dessas questões do que no meu tempo.

Em recente entrevista a um jornal brasileiro, o senhor comentou que a profissão de advogado está em crise nos Estados Unidos, e que as transmissões pela TV transformaram os julgamentos em uma espécie de show. Que cenário o senhor desenha no futuro?

Turow – Eu não tenho ideia alguma de como minha resposta foi traduzida, mas eu não estava sugerindo que a profissão de advogado enfrenta problemas apenas por causa de julgamentos televisionados. Acho que o gato está escondido mas com o rabo de fora nesse caso das TVs nas salas dos tribunais, e que isso eventualmente acabará por se tornar a norma em toda parte nos Estados Unidos, o que é preocupante porque muitas vezes todos na corte – advogados, juiz, jurados – passam a agir de forma diferente, agora que são estrelas da TV. Mas o direito a um julgamento público provavelmente supera os novos problemas. O que está atrapalhando a profissão nos EUA é algo muito mais complexo: o excesso de oferta de advogados, causado, em grande parte, por muitas escolas de Direito que fazem dinheiro com o apoio aos alunos por intermédio de empréstimos que eles acabam sendo incapazes de pagar. E o menor custo da concorrência estrangeira. Por que não pagar um advogado experiente na Índia, que conhece a common law, para fazer o trabalho jurídico, em vez de um novo bacharel em Direito dos Estados Unidos, especialmente quando o indiano cobra menos? É uma cadeia alimentar que tende a premiar as principais empresas, e deixa todos os demais para trás; e clientes que, finalmente, tornam-se menos dispostos a pagar enormes honorários advocatícios. Um sistema em que o vencedor leva tudo, e onde é mais difícil para muitos outros advogados sobreviverem.

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