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Compositores que exerceram advocacia falam sobre Direito

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Imagem: Divulgação

Vitor Fraga

Existe algo em comum entre o trabalho de um músico ou de um compositor popular e o cotidiano da advocacia? A experiência das idas e vindas aos cartórios, fóruns e tribunais pode servir de algum modo para quem tem na poesia e na música seu modo de vida? Se a pergunta for feita aos compositores (e advogados) Carlos Colla, Luiz Ayrão, Nei Lopes e Ruy Faria, a resposta pode surpreender aqueles que veem o Direito apenas como o lugar da letra fria da lei.

“Todo mundo deveria estudar Direito para ter uma compreensão melhor do mundo. Nos dez anos em que fui advogado, convivi com muita gente, acumulei uma série de experiências, histórias, sentimentos, emoções das outras pessoas. Era meu material de trabalho. Eu me sinto um advogado que gosta de música”, diz Carlos Colla, autor de sucessos como Falando sério (com Maurício Duboc), gravada por Roberto Carlos e diversos intérpretes brasileiros e estrangeiros, e Verdade chinesa (com Gilson), sucesso na voz de Emílio Santiago – que também era advogado. “Conversava muito sobre Direito com o Emílio, que tinha um conhecimento muito sólido. Verdade chinesa, que fiz para ele, surgiu a partir da história de um cliente. O cara chegou na minha casa triste, estava se separando da esposa. Da conversa, surgiram os versos: ‘Senta / Se acomoda / À vontade / Tá em casa / Toma um copo / Dá um tempo, que a tristeza vai passar'”, revela Colla.

Apesar de, se dizer, atualmente, desapontado com a Justiça brasileira, Ruy Faria, ex-integrante do MPB-4, não esconde o orgulho por ter exercido a profissão. “A vida serve de experiência para tudo, inclusive para a música e a advocacia. O Direito deveria ser algo para resolver as coisas da vida, mas confesso que estou meio desesperançado. Na dúvida, lembro daquela frase: ‘Brasileiro, profissão esperança’, porque sei que é uma visão pessimista. Tenho o maior orgulho de ser advogado, acho que a Justiça poderia ajudar muito a melhorar o país”, observa ele.

O compositor Luiz Ayrão, por sua vez, foi atraído para a advocacia pelo ideal revolucionário. “Era apaixonado pelo Direito. Tornei-me advogado por dois motivos: primeiro, era fã de Fidel Castro, que era advogado. Além disso, sonhava ‘esquerdizar’ o Brasil com o Direito. Eu não acreditava muito que seria cantor. Na época, para gravar um disco, tinha que ter talento, nascer artista. Mas minha família toda por parte de pai é de músicos e compositores, ainda que não profissionais”, explica.

O sambista Nei Lopes destaca que o Direito o acompanha até hoje na carreira artística. “Eu sei o que é propriedade intelectual, autoria, cessão de direitos, e não assino nenhum contrato sem consultar o advogado que mora dentro de mim”, declara ele, que é autor de versos como: “Felicidade passou no vestibular / E agora tá ruim de aturar / Mudou-se pra faculdade de Direito / E só fala com a gente de um jeito / Cheio de preliminar”, da música Justiça gratuita. “Aí sou eu brincando comigo mesmo, acho muito engraçado o ‘juridiquês’. Já fiz até versos em latim, língua de que também gosto, quase tanto quanto os idiomas africanos que estudo”, conta.

Em março de 1964, Nei Lopes estudava na Faculdade Nacional de Direito da antiga Universidade do Brasil (atual UFRJ). “Entrei no vestibular de 1962 e logo me envolvi no setor artístico da militância política, na reforma universitária e no Centro Popular de Cultura (CPC) do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco). Quando eu estava no 3º ano, aconteceu aquilo que todo mundo sabe. Depois de alguns percalços, me formei em 1966. Advoguei cuidando principalmente de imóveis, numa pequena banca suburbana. Era um civilista, lidando com propriedade, posse etc. Trabalhei na advocacia até 1972, quando bateu um estresse e preferi viver do que sabia fazer melhor: escrever”, relata.

A vida política do país também serviu de pano de fundo para a formação de Ruy Faria, que se tornou bacharel em 1964, pela Universidade Federal Fluminense. “Gostava muito de algumas disciplinas, mas assim que concluí a faculdade formamos o MPB-4, então não cheguei a exercer a advocacia. Durante a carreira na música nunca pensei em voltar, mas de certa forma sempre me considerei e ainda me considero advogado”, diz ele. Ao sair do grupo musical, em 2004, Ruy tampouco pensava em advogar.

“Mas a carreira solo não era fácil, e fui levado a voltar ao Direito pela necessidade de trabalhar. Como nunca tinha atuado, estudei durante um ano para o Exame de Ordem, até ficar sabendo que não precisava, por ter me formado antes dessa exigência legal. Com a carteira nas mãos, passei a trabalhar em parceria com meu amigo Gustavo Toledo. Consegui até ganhar uma ação sozinho, mas foi uma decepção atrás da outra, principalmente com a morosidade da Justiça. Meu processo em relação aos direitos da marca MPB-4, por exemplo, já fez dez anos e não tem solução ainda”, diz Ruy.

Luiz Ayrão formou-se em 1968 pela Universidade Cândido Mendes. “Comecei trabalhando com Direito Penal, mas na época da ditadura era complicado. Aí enveredei pelo Direito Tributário, que era algo novo, nas faculdades nem se estudava, havia apenas a disciplina Ciência das finanças. O Código Tributário tinha sido homologado há pouco, e nem os juízes manjavam bem a área. Fiz cursos, alguns com os próprios fiscais. Quem conhecia o tema se dava bem”, lembra. A carreira de advogado durou até o início dos anos 1970. “Trabalhava como procurador do Banco do Estado da Guanabara (BEG). Em 1974, comecei a fazer sucesso como cantor, porque até então era apenas compositor. Gravei primeiro Porta aberta, uma homenagem à Portela, e depois No silêncio na madrugada. Odisco estourou e tive que abandonar o escritório, eram muitas viagens para fazer shows. Tentei conciliar, mas não deu”, lamenta.

Formado em 1974 também pela Candido Mendes, Carlos Colla militou por cerca de dez anos na advocacia. Integrou uma sociedade de advogados durante algum tempo, teve escritório próprio e, paralelamente, trabalhou na OAB. “Antes de me formar já vinha atuando como advogado, porque sempre fui conselheiro dos meus amigos. Alguns deles, como José Ribeiro de Castro Filho e Humberto Quartin, sugeriram que eu fizesse concurso para a Ordem, onde acabei me tornando chefe do Setor de Ética e Disciplina, e depois chefe de gabinete da presidência”, relata ele, citando Castro Filho, fundador da Tribuna do Advogado e presidente da OAB/Guanabara (1971/1973) e da OAB Nacional (1973/1975) no período em que Colla trabalhou na casa.

“Na minha época de jovem era um demérito ser músico profissional, não era sério. Sério era o Direito. Eu era apaixonado, graças aos filmes, por toda a magia que a advocacia tem, a voz do mais fraco sendo ouvida. Sempre gostei de história antiga, de Roma, do Direito romano. O Direito na verdade é a costura que une todos os seres humanos e faz com que eles vivam em harmonia. Ao menos isso era o que eu pensava… “. O fim da carreira veio com a carta-bomba enviada à sede do Conselho Federal em 1980. “O episódio da bomba foi a pá de cal no Direito para mim”, resume.

Colla recorda que “o trabalho na OAB era subterrâneo, a gente tomava depoimentos, procurava os advogados presos pelo regime nos quartéis… Éramos muito humilhados naquela época, isso me deixava triste. Ao mesmo tempo, a Ordem era o único lugar onde existia liberdade no país. Com o episódio da bomba, comecei a pensar que não adiantava nada ser advogado”, recorda-se.

Mas ao falar dos recentes protestos de rua no Brasil, o advogado Carlos Colla se faz presente. “Os voluntários que defendem os manifestantes estão no exercício da profissão. Somos vigilantes da sociedade, acho que a OAB continua sendo deslumbrante, o centro de tudo isso que falamos. Quando alguém se torna conselheiro ou diretor, perde mais do que ganha. São pessoas abnegadas, que têm orgulho da profissão. A advocacia é a primeira linha de defesa da democracia”, afirma.

Luiz Ayrão, que atribui à formação em Direito boa parte da inspiração para atemática social de suas músicas, teve diversas letras censuradas. Um exemplo é Treze anos, lançada em 1977, quando os militares fizeram uma grande festa pelos 13 anos da ditadura. “Gravei a música e saiu na capa e no selo o títuloTreze anos. O disco chegou às mãos do ministro da Guerra da época, e a censura proibiu, mas os LPs já estavam sendo distribuídos, a música já estava tocando nas rádios. Mandei tirar os selos e trocar o título para O divórcio, que acabou não sendo muito tocada depois”, diz o autor dos versos: “Treze anos eu te aturo, eu não aguento mais / […] Você vem me enclausurando, como Alcatraz / […]Um dia eu perco a timidez, e falo sério / E faço as minhas leis, com o meu critério / E vou para o xadrez ou cemitério / Mas findo de uma vez com seu império”.

O MPB-4 e Ruy Faria também foram perseguidos pela censura. “Nosso trabalho tinha uma conotação política muito forte. Durante a ditadura, alguns shows nossos foram proibidos, sempre tínhamos que fazer um ensaio antes para os censores. Fazíamos então um espetáculo ruim, com notas erradas. No show, a gente começava a cantar Apesar de você e parava, mas o público continuava. Aí, fechavam o teatro. Uma vez fomos a Cuba dar um show e na volta nos prenderam e levaram para a Polícia Federal. Quem soltou a gente foi o Marcello Cerqueira”, acrescenta Ruy, que se declara favorável a qualquer manifestação popular nas ruas. “Vejo com muito bons olhos esses movimentos, os que não são violentos, pois já participei de muitos. A OAB precisa defender os manifestantes”.

Nei Lopes corrobora a defesa da função pública do advogado. “Mesmo não militando no fórum há várias décadas, mantenho minha inscrição ativa na Ordem exatamente por isso: pela função pública e social que procuro exercer, principalmente em prol da cidadania afrodescendente, tão aviltada no Brasil até hoje”, destaca.

E o cotidiano da advocacia pode ajudar de alguma forma o trabalho de um artista? Carlos Colla garante que sim. “O Direito me ensinou a clareza no escrever. Não perco muito tempo poetizando, só quando quero. Normalmente falo direto, como aprendi com advogados como o Heleno Fragoso. Além disso, o advogado é rigoroso com horário, com prazos. Passei a usar esse rigor na música”, diz, revelando um segredo. “O Direito me ensinou que cada juiz tem um estilo. Se você escrever no estilo dele, o magistrado irá olhar sua petição com bons olhos. Isso me ajudou tremendamente na música, porque posso falar a língua do cantor, exatamente como aprendi a fazer com os juízes. Quando componho para o Roberto Carlos, uso notas, palavreado, sons próprios dele que são muito diferentes, por exemplo, de quando escrevo para Bruno e Marrone, Zezé di Camargo, Alcione”.

Para Luiz Ayrão, a qualidade de suas composições sofre influência direta da formação como advogado e do amor do pai pelos livros. “Daí vieram a correção das letras, o cuidado com a métrica, as metáforas, o cunho social”, enumera ele, que também usa na música hábitos adquiridos como advogado, como a obediência aos horários e a “rigidez na palavra empenhada”. Nesse aspecto, conta que não se via como artista. “Minha disciplina vinha das audiências, onde você não pode chegar atrasado. Custei a me livrar da gravata e do paletó, cantava com a indumentária de advogado, sem ela não me sentia inteiro. Aos poucos fui mudando, mas levei anos para colocar uma camisa esporte. E meus contratos são muito bem feitos, porque penso até hoje como advogado”, sublinha.

A experiência na advocacia também ajudou Carlos Colla nas negociações contratuais. “O relacionamento entre editoras, gravadoras, cantores e compositores é um ninho de gatos. Até leis inexistentes são utilizadas. Por exemplo, quando entrei no negócio, frequentemente falavam numa convenção, com uma suposta cláusula sexta, segundo a qual não seria permitido que um autor novo entrasse numa sociedade arrecadadora. Arrumei uma encrenca no meio musical quando desarmei esse circo, usado com todos os artistas. Não posso dizer que sou persona grata para editoras e arrecadadoras, porque exerço meus direitos. Fruto da experiência como advogado, que tem que aprender a ser respeitado”, diz.

Embora ainda “pense como advogado”, Luiz Ayrão diz que não pretende voltar ao Direito. “Até porque parei de pagar a anuidade. Quem sabe recebo uma anistia, uma remissão, para voltar a fazer um júri ou ao menos ter a satisfação de ter uma carteira nova da Ordem. Uma vez recebi convite para fazer um processo com um amigo, era um júri, porque eu entendia muito de Direito Penal, e ele dizia que todo criminalista é um bom artista, eu tinha vocação para ator também… Na época estava envolvido com uma loja comercial [o compositor é até hoje dono de uma ótica na Zona Norte]. Mas meu filho, Vladimir Ayrão, é advogado”, revela um orgulhoso Ayrão, que continua fazendo shows pelo país.

Para Nei Lopes, que também não pretende retornar à advocacia, a profissão mudou muito. “Acho que se abriram muitas possibilidades em áreas que não existiam na minha época, inclusive no campo artístico e do entretenimento”. Já Ruy Faria garante que só voltaria para trabalhar em parceria com algum colega. “Na música e no Direito, a parceria é sempre bem-vinda”, brinca ele, que está lançando um novo CD, Bate bola, em parceria com Afonso Machado, que tem músicas ligadas ao universo do futebol, como Linha de passe (João Bosco/Aldir Blanc/Paulo Emílio) e Na cadência do samba (Que bonito é), de Luiz Bandeira.

Perguntado se já pensou em voltar ao Direito, Carlos Colla – cuja filha, Daniela Colla, é advogada e sua representante nas negociações com gravadoras e outras empresas – responde de bate-pronto: “Todo ano eu quero voltar! Mas a música me ocupou de um jeito que não tenho como parar, há pessoas que dependem de mim, do meu trabalho. E, fora isso, gosto muito da música. Mas tenho uma casa alugada em Maricá, em frente ao Fórum. Um dos meus sonhos é, daqui a alguns anos, voltar a ter um escritório e advogar, vagarosamente”, vislumbra.

Vitor Fraga é jornalista da OAB/RJ
www.oabrj.org.br



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